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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Resenha Blu-Ray: Kong - A Ilha da Caveira


Minha fé em Kong - A Ilha da Caveira, era inversamente proporcional ao tamanho do macacão no poster do filme, desde as primeiras imagens deixando claro ser bem maior do que os treze metros do King Kong que eu conheci. O Kong de Ilha da Caveira não escala arranha-céus, ele próprio é um arranha-céu.
Essa turbinada no tamanho do símio gigante é necessária para que Kong possa enfrentar Godzilla num futuro crossover de monstros gigantes, porque aparentemente, hoje em dia, não basta a um estúdio ter uma franquia (Kong é da Warner, que já tem a DC e Harry Potter), é necessário ter um universo compartilhado, não importa se é uma boa ideia, ou não.
Esse Kong - A Ilha da Caveira, dá a pinta de ser um lance feito algo apressadamente de maneira a aproveitar o sucesso do Godzilla, de Gareth Edwards, um filme que eu, francamente, não achei tão bom quanto foi alardeado.
Isso não significa, porém, que o novo King Kong seja um filme ruim, ou desprovido de qualquer qualidade.
Não é o caso.
Há boas ideias no longa de Jordan Vogt-Roberts, ainda que elas não sejam sempre bem aproveitadas e nem bem organizadas.
O filme narra a história de um grupo de cientistas que, em 1973, no apagar das luzes da guerra do Vietnã consegue permissão do governo dos EUA para explorar uma ilha não-cartografada no pacífico sul. Os idealizadores dessa pesquisa são Bill Randa (John Goodman) e Houston Brooks (Corey Hawkins). Sua desculpa para investigar a ilha é a de explorá-la antes que os soviéticos o façam, mas, na verdade, Randa planeja encontrar lá um novo tipo de ecossistema que existe no subterrâneo, composto por criaturas tão grandes que teriam tomado parte na extinção dos dinossauros.
Para chegarem à ilha, cercada sempre por um microclima de tempestades perenes, os cientistas precisam de escolta militar, que se materializa na forma do coronel Preston Packard (Samuel L. Jackson), um militar devotado ao seu ofício, que ainda não aceitou a derrota no Vietnã. O coronel Packard e seus homens, um grande contingente de militares dos quais apenas uns dois ou três são dignos de nota, se juntam a Randa, Brooks e seu grupo, um grande contingente de cientistas dos quais apenas dois ou três são dignos de nota, além do ex-oficial da SAS James Conrad (Tom Hiddleston), e da fotógrafa de guerra Mason Weaver (Brie Larson).
O plano é verificar o subsolo da ilha através da detonação de cargas explosivas sísmicas, uma maneira bastante irresponsável de explorar um ambiente estranho sem nenhum contato documentado com a humanidade, devo dizer, mas enfim... O plano é cruzar a ilha de norte a sul, encontrar um grupo com combustível e suprimentos, reabastecer as aeronaves e ir embora.
Obviamente não precisamos de mais do que meia-dúzia de explosões para que o rei da ilha, Kong em pessoa, apareça e lance o horror sobre os militares, que desprovidos de seus equipamentos e aeronaves se veem em um ambiente absolutamente hostil onde não são nada além de comida.
Pior: Ao lançarem suas cargas sísmicas, os visitantes despertaram um grande terror oculto nas entranhas da terra, e não tarda para que sua única chance de sobrevivência seja confiar em Hank Marlow (John C. Reilly), um combatente da Segunda Guerra Mundial que está perdido na Ilha há 28 anos, e em Kong, adorado pela tripo que lá vive como um Deus Protetor. Mas mesmo isso pode ser impossível conforme um dos membros do grupo passa a nutrir um ódio quase mortal por Kong.
Os filmes de monstros se dividem entre os de suspense e os de aventura.
Nos suspenses nós pouco vemos o monstro, que geralmente é guardado para o final em uma revelação épica que toma quase toda a duração do filme ao longo do qual temos mais a reação das pessoas à criatura. Nos filmes de aventura, o fetiche é o monstro, e não seu efeito sobre as pessoas, e nós podemos ver o bicho desde o começo e ele raramente fica longe da tela.
Ilha da Caveira, obviamente é um exemplar do segundo tipo, contra o qual, aliás, eu nada tenho.
Kong aparece na tela parcialmente logo nos primeiros minutos de filme, e não leva meia hora pra comandar as ações do longa junto com todas as outras criaturas que habitam a ilha, aranhas gigantes, búfalos gigantes, polvos gigantes, e lagartos rastejantes com bicos de pterodáctilo e cauda de serpente que não têm pernas (é, eu sei. Estranho).
O roteiro de John Gatins, Dan Gilroy, Max Borenstein e Dereck Connoly acerta a mão em diversos pontos, como situar a ação nos anos setenta, quando mapeamento por satélite ainda era uma novidade e o gosto amargo do Vietnã ainda era muito presente na boca dos militares norte-americanos, usando uma trilha sonora cabulosa com Creedence Clearwater Revival, Jefferson Airplane e outras clássicas enquanto presta homenagens mais do que claras a Apocalypse Now e Platoon, enquanto tece não-tão-discretas críticas ao militarismo estadunidense em meio ao espetáculo.
O ponto é que, a despeito dos efeitos visuais caprichados, que dão tamanho e peso às criaturas na tela, o visual de Kong não é tão espetacular. Não há nada de novo em ver monstros gigantes de digladiando. A luta entre o King Kong de Peter Jackson e dois tiranossauros ainda é melhor do que qualquer uma das várias cenas de luta em Ilha da Caveira.
Outro senão do longa é que os personagens simplesmente não evocam interesse. Ninguém liga pro rastreador bonitão de Tom Hiddleston, nem pro milico malvado de Jackson, ou pra mocinha de cabelos revoltos de Brie Larson. O único personagem realmente cativante do filme é o de John C. Reilly, que consegue roubar a cena até mesmo de Kong, óbvia estrela do filme, seguido de muito longe pelos soldados Cole de Shea Whigham e Slivko, de Thomas Mann, de resto, são todos arquétipos, acessórios ou comida de monstro.
Mesmo Kong, um personagem com quem, em geral, a audiência se importa (eu me escondi embaixo do sofá, chorando, após a morte do Kong de 1973), não gera o mesmo fascínio conforme sabemos que ele precisa sobreviver a esse filme para enfrentar Godzilla, então até o mote da destruição da natureza de Kong como o bom-selvagem é diluído, e o filme se dilui junto.
Ainda assim, Kong, se for visto de maneira absolutamente despretensiosa, rende duas horas de entretenimento rasteiro. Há capricho técnico e um elenco de qualidade sem ter muito o que fazer (John Ortiz, Richard Jenkins, Toby Kebbell também estão no elenco junto com a, agora obrigatória presença chinesa, Tian Jing), e Kong termina deixando bastante claro que era, acima de tudo, um produto mais do que um filme.
Assista se for um fã hardcore de filmes de monstros, ou estiver preso em casa numa tarde chuvosa de domingo.

"-Ás vezes não há inimigo até você procurar um."



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