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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Chance


Não foi sem uma ponta de sarcasmo que o Manoel, que não era português, embora tivesse descendência lusa, nem burro, embora houvesse feito algumas burradas na vida, deu-se por conta de como andavam as coisas naquelas últimas semanas. E não foi sem uma ponta de sarcasmo (Manoel, ás vezes, achava que sarcasmo era uma importante ferramenta na manutenção da sanidade) que Manoel percebeu como, de vez em quando, um evento relativamente pequeno, era capaz de alterar tanto o curso dos fatos na vida de alguém.
Nesse caso, ele próprio.
Pouco mais de um mês antes, Manoel estava feliz, fazendo planos, trabalhando, estudando e cuidando de sua vida da melhor forma possível, o que não era lá com muito cuidado, mas enfim, garantia um espaço naquele largo patamar do que é "funcional".
Manoel não era muito de se entregar a sentimentos, pois os considerava perigosos. Fora provavelmente na novelização de um dos episódios de Star Wars que Obi-Wan Kenobi dissera a Anakin Skywalker que seus sentimentos em relação à Padmé Amidála eram perigosos. Manoel não era besta de fazer ouvidos moucos aos conselhos de um mestre jedi. Especialmente um descolado como Obi-Wan Kenobi. Tentava, então, manter seus sentimentos sob controle. Ou, ao menos, livres apenas até certo ponto.
Recentemente encontrara alguém que lhe fazia dar mais e mais liberdade ao que sentia. Como nós fazemos com o nosso cachorro em um parque ao perceber que não há perigo próximo.
Não chegava a admitir que estava feliz, o Manoel, mas a verdade é que, no fundo, ele estava, sim. Chegava até a se pegar fazendo planos que envolviam flores, chocolates e Let My Love Open The Door, de Pete Townshend. Mais cafona impossível.
Há, porém, sempre uma ameaça no caminho dos incautos como Manoel, e o que ontem parecia sorte, hoje, pode ser azar, dependendo apenas de acaso.
Quando pequeno, Manoel foi acolhido por uma tia em um momento difícil da infância em que seus pais se puseram a repensar o relacionamento que tinham e as escolhas que haviam feito. Foi sorte que a tia de Manoel fosse viúva e não tivesse filhos, de outro modo, talvez jamais houvesse acolhido Manoel de bom grado como fez.
Era uma feliz coincidência que o pai e a tia de Manoel não se falassem devido a uma briga de alguns anos ntes, ou ele certamente teria ido até lá buscar o menino, ofendido com a ideia de deixar a criação e os cuidados de seu filho nas mãos da irmã.
Sua mãe ficou eternamente grata à cunhada quando, após alguns meses, com tudo já acertado entre ela e o marido, pôde ir buscar o filho são e salvo e dar seguimento à sua vida.
Tudo pareceu sorte à época. Todavia, as coisas ás vezes podem virar à menor das oscilações.
Não foi mais senão acaso que fez com que a tia de Manoel, que praticamente o criara naquele conturbado momento da infância, escorregasse no chuveiro durante o banho e sofresse uma grave lesão cervical, ficando incapacitada de se movimentar.
Não foi nada além de azar que fez com que a tia de Manoel estivesse viúva, e não tivesse tido filhos.
Não foi nada além de chance que fez com que o único irmão da tia de Manoel, seu pai, estivesse brigado com ela a anos e os dois não se falassem, tampouco que a mãe de Manoel, condoída com toda a situação, se dispusesse a cuidar da cunhada em necessidade.
Não foi nada além do senso de responsabilidade nascido dos gibis e livros presenteados pela tia que fez com que Manoel se visse na obrigação de ajudar sua mãe e sua tia não importava o custo.
Manoel sabia, claro, que a situação não era definitiva. Sua tia tinha plenas condições e vontade de se recuperar. A dureza, a aspereza e a persistência teimosa eram características bastante vivas na sua família. Na verdade, Manoel ás vezes se pegava envergonhado ao pensar se teria abraçado as responsabilidades recém surgidas com tanto estoicismo se a situação não fosse claramente passageira. Tão envergonhado que até evitava pensar nisso., Não era lá um grande desafio. Naqueles dias Manoel andava cansado como não se sentia em muito tempo.
Viu-se obrigado a se afastar de uma porção de coisas que prezava. Andava vendo pouco seus amigos. Perdera várias das partidas de futebol que tanto prezava. Estava vendo menos filmes e se afastara dela. Aquela pessoa que significava tanto pra ele. Ele sentia a falta dela, das conversas risos e lágrimas que partilharam. Mas lembrava-se de um trecho de uma história que lera uma vez:
As pessoas permanecem conosco enquanto são lembradas.
E ela estava sempre em seus pensamentos.

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