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terça-feira, 16 de agosto de 2011

A Lenda


O Hélcio tinha cabelos pretos ondulados que pareciam precisar de corte já a algum tempo. Alguns fios rebeldes escapavam-lhe sobre a testa e os olhos. Hélcio andava sempre com uma calça jeans surrada e clara, com os joelhos puídos, quase rasgando, e camisetas pretas muito justas, de mangas quase surecas, jaquetas envelhecidas por cima do corpo, geralmente encurvado. Tinha as pálpebras sempre baixas como se estivesse cansado. Andava olhando pro chão, e, ás vezes, usava pintura no olho. Sentava-se sozinho nos cantos de bares obscuros e encarava com expressão de incredulidade as meninas bonitas que, não raro, o olhavam intrigadas enquanto ele bebia uma ou duas doses de vodka que pagava com notas amassadas a cada passagem da garçonete.
Ninguém via o Hélcio de dia. Somente à noite, quando ele vagava pela Cidade Baixa com as mãos nos bolsos.
Havia uma mística entre as frequentadoras dos bares da região de que Hélcio era um poeta tristonho que publicava livretos de versos na Bamboletras sob pseudônimos femininos.
Outras diziam que ele tivera uma namorada rica anos atrás, mas que o pai dela, sabendo que ele era pobre, proibiu o romance, e ela, desiludida por não poder dividir a vida com Hélcio, suicidou-se, o que jogou o pobre rapaz na sarjeta.
Havia ainda quem dissesse que ele era o herdeiro de um rico industrial do centro do país, ou de um magnata do soja no centro-oeste, e que fugira da obrigação de seguir os passos do pai após a mãe morrer e uma madrasta quase da sua idade ser acolhida ao espaço que fora de sua genitora.
As mulheres suspiravam à simples passagem do Hélcio, relembrando essas histórias e criando outras novas a cada detalhe que percebiam dele.
Algumas, ás vezes, tomavam coragem e se aproximavam, essas passavam noites sôfregas de sexo selvagem, onde, não raro, as perguntas feitas com olhos brilhantes pelas moças após o ato, encontravam nenhuma resposta além de um olhar distante e um doloroso sussurro de "Eu prefiro não falar a esse respeito...". Arrancando lágrimas das moçoilas que se punham a acariciar os cabelos desalinhados de Hélcio até que ele encontrasse o sono.
Essas, passavam a espalhar a lenda de que algo no passado magoara aquele homem além de qualquer conserto, e seguiam com suas vidas confortadas e satisfeitas por terem dado a ele uma fagulha de alívio e afeto em meio à tempestade de depressão e melancolia onde ele trafegava só.
O que ninguém sabia é que Hélcio trabalhava numa revenda de carros em Cachoeirinha, passava o dia de cabelo bem penteado e cheio de gel, calça de prega, camisa de mangas curtas e gravata, era vendedor, bom de papo, divorciado e tinha uma filha com quem passava finais de semana alternados. A produção de roqueiro/poeta era apenas um chamariz pra arrastar mulher pra motéis de Porto Alegre sem precisar se preocupar em ligar no dia seguinte. Como nenhuma das incautas de Hélcio descobria isso, a lenda do jovem magoado seguia crescendo e funcionando, e no sábado, churrasqueando depois da pelada com o pessoal da firma, ele contava entre linguiças e costelas como se dera bem naquela semana com um artifício que era mais falso que crocodilos no esgoto.

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