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quarta-feira, 11 de abril de 2012

Pra manter vivo.


A Fernanda chegou ao parque, cabelo preso em um rabo de cavalo bem grande, blusa branca, saia preta e tênis, e ficou olhando em volta segurando a alça da bolsa com as duas mãos. Vários metros adiante, o Roberto se levantou do banco onde estava sentado e ergueu o braço em um aceno, chamando a atenção dela. Fernanda suspirou e foi andando em direção a ele, que ficou parado, mãos nos bolsos da calça jeans larga, olhando enquanto ela se aproximava.
As mãos nos bolsos tinham sua razão, o Roberto não sabia se devia abraçá-la, ou não. Sabia que não estenderia a mão para cumprimentá-la como se faz quando encontra-se um tio-avô que não se vê a muito tempo, certamente que não. Sabia, também, que iria querer abraçá-la. Na última vez em que a vira não a abraçou. Se inclinou como se saudasse um lutador de karatê adversário e a beijou, de leve, no rosto. Não foi uma boa experiência. Havia se acostumado a abraçá-la nos últimos meses. Quando se conheceram, quando se viram, pela primeira vez ao vivo, ela o abraçou. Ele lembrava daquele sábado à noite em um dia particularmente quente de junho, quando após um dia inteiro de desencontros, finalmente iria vê-la. Ele estava de costas, olhando pra rua, e ouviu o ruído do salto dos sapatos dela na calçada e se virou. E ela estava ali. Linda, linda, linda. E sorriu pra ele, e andou em sua direção e o abraçou, e, meu Deus, como ela era perfumada... E dali em diante, quando eles se encontravam, sempre havia abraços. Ou melhor ainda, havia beijos, beijos como aquele que ela pedira de uma forma que não dava margem à negativas, como se alguém em sã consciência fosse querer negar-lhe um beijo. E agora aquilo, ele escondia as mãos dentro dos bolsos porque não sabia o que fazer quando ela se aproximasse.
Finalmente Fernanda chegou perto dele, apoiou sua mão direita no ombro esquerdo de Roberto, que se inclinou e recebeu um beijo no rosto. Ele sorriu pra ela enquanto se endireitava pensando com raiva na alegoria do lutador de karatê.
-Oi, tudo bem com você? - Ela perguntou, delicada.
-Sim. - Ele respondeu. -Tudo joia. E contigo?
Ela deu de ombros:
-Tudo bem...
Ele fez sinal pra que ela sentasse no banco junto com ele, ela sentou, juntando os joelhos enquanto colocava a bolsa a seu lado, e olhou pra ele.
Ele olhou de volta, direto nos olhos dela, nas sobrancelhas, também. Aquelas sobrancelhas arqueadas com uma qualidade meio Peter Pan, meio Shazam que ele tanto adorava desde a primeira vez em que as percebeu. Olhou as suas mãos, juntas sobre suas pernas, as mãos dela, pequenas, delicadas... Lembrou-se de quando haviam dado as mãos pela primeira vez. A caminho do cinema, ele nervoso a ponto de mal conseguir pensar nos que estava acontecendo... E as pernas dela, que ele achou lindas desde o primeiro vislumbre e que, por sorte, estavam sempre de fora fizesse chuva ou sol, frio ou calor. Ela parecia um pouco aflita. Ele entendia, ela estava com raiva dele, o que era perfeitamente natural considerando tudo.
Ele estava com raiva de si mesmo, como ela não estaria? Ele tentou se lembrar de como deixara certas coisas tomarem tão grandes proporções a ponto de se interporem entre ele e ela. Pensou na frustração de ver tudo tão perfeito e bem encaminhado degringolar. Pensou em se desculpar de novo por tê-la feito perder tempo. Pensou em tantas coisas pra dizer. Mas continuou olhando pra ela, vendo ali, a pouco mais de trinta centímetros de distância os lábios mais doces em que já colara os seus, o corpo onde estivera mais feliz em sua vida, e a pessoa mais especial que jamais imaginou existir. Ele sabia que as coisas iam mal, mas recusava-se a deixar pra lá, não podia conceber a ideia de perdê-la de vez.
Ela olhou pra ele de baixo pra cima, e perguntou:
-Por que tu me chamou aqui...?
Ele abriu a boca pra falar mas as palavras lhe faltaram:
-...
Não conseguia concatenar nada, mas antes reticências, que manteriam aquilo vivo, do que pontos finais.

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