Pesquisar este blog

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Vernáculo


Quando a Verônica se mudou de Sorocaba pra Canoas, ela sabia que estava dando um passo que mudaria sua vida completamente. Pela primeira vez em sua existência, a Verônica estaria longe da família, numa terra de pessoas estranhas, com hábitos totalmente diferentes daqueles aos quais ela era afeita.
Ainda assim, a oportunidade de trabalho que lhe fora oferecida na cidade, um pólo universitário na região metropolitana da capital gaúcha, era boa demais pra ser ignorada, de modo que Verônica resolveu apostar no sucesso profissional em detrimento do conforto cálido de estar pertinho da mãe e do pai em caso de emergência, e arriscar.
Após semanas ouvindo as recomendações de sua mãe, muito preocupada, e as piadas de gaúcho do seu pai, Verônica se mudou sentindo uma ponta de aflição que começou a apertar seu coração dentro do peito na véspera da viagem e foi aumentando até fazer ela pensar que eu coração não bateria mais quando ela se despediu de sua mãe e pai no aeroporto, e ter certeza de que ele havia parado de bater quando o avião decolou.
Mas não, seu coração seguiu funcionando durante a viagem. Apesar de descompassado, ele seguiu batendo. Ela o sentiu apertar-se dentro do peito diversas vezes durante a viagem, pensando em tudo o que estava deixando pra trás. Mas tentou engolir o medo concentrando-se em porque estava se mudando.
Nem completara trinta anos e poderia coordenar um curso universitário. Coordenar! Não era uma oportunidade que surgisse com frequência, especialmente pra uma moça jovem como ela. Todos aqueles anos em que ela deixara de ir à festas para se estudar, o dinheiro investido em mestrado, doutorado e tudo mais... Tudo seria finalmente recompensado. Mas para Verônica, desconfiada que era, havia o medo. O medo do desconhecido. De falhar. De estar dando um passo maior que a perna. E com medo, Verônica dormiu um sono agitado.
A chegada a Canoas, uma cidade feia com as piores qualidades de uma cidade grande e todos os defeitos de uma cidade pequena, não ajudou muito.
Descer do metrô na estação Mathias Velho, bairro onde ficava a pensão onde ela iria morar até se estabelecer e alugar um apartamento, e andar até a casa onde ela se hospedaria, talvez tenha sido o trajeto mais longo e tortuoso que ela já cumprira em sua vida. Cada passo foi dado com incerteza e hesitação, embora as instruções que lhe haviam sido dadas fossem bastante claras.
Conversar com a dona da pensão a acalmou um pouco. Era uma mulher relativamente jovem, dos seus quarenta e poucos anos, muito sorridente. Preencher a ficha de hospedagem foi fácil, conhecer algumas das colegas de pensão, também. Mas estar sozinha em seu quarto pela primeira vez foi difícil. Tão difícil que Verônica pensou que não fosse conseguir.
Mas Verônica perseverou. Deu algumas escorregadas, aprendeu através dos erros e seguiu em frente. Adaptou-se, enfim, à nova rotina. Fez amigas, e amigos, o emprego ajudou muito. Era tudo com o que ela sonhara pra sua vida profissional, e sua formação, suas habilidades, sua personalidade, tudo conspirava para que ela tivesse sucesso na busca pela excelência na sua área.
Verônica saiu da pensão. Alugou um apartamento pequeno próximo à universidade onde trabalhava, acostumou-se com as particularidades da cidade. As pequenas diferenças da vida na cidade gaúcha comparada à sua vida em Sorocaba. Não era tão diferente. Como em qualquer parte do mundo, havia pessoas chatas, mas também havia pessoas bacanas. A comida não era tão diferente, à exceção da fixação dos gaúchos com carne. A música que tocava aqui era o mesmo lixo que tocava lá com raras exceções. O chimarrão era algo com que se habituar, mas no fim das contas era só um chá amargo que o pessoal do estado levava muito a sério... O que a Verônica estranhava, mesmo, era o jeito de as pessoas falarem. Não o sotaque. Cada lugar tinha o seu, normal. Se à princípio ela estranhou o modo cantado como o pessoal enunciava, logo se acostumou àquela sensação de estar vivendo em um musical. Não era isso. O que ela estranhava, mesmo, eram os termos.
Aprender que "carpim" era meia. Que "se pelar" era tirar a roupa. Que "pechada" era colisão... Isso tomou algum tempo da Verônica, e frequentemente à surpreendia.
Como aconteceu quando ela conheceu o Paulo.
O Paulo trabalhava na mesma universidade que a Verônica. Regulava de idade com ela. Pouco mais velho, um ano, ou dois. Era um sujeito gentil, cuca fresca. Era professor, ensinava filosofia, que ele mesmo admitia ser um lance meio inútil nos dias de hoje, mas era um apaixonado. Não era um chato metido a erudito. Era bacana de conversar, antenado, cheirava bem, estabelecido na vida, solteiro... Não chegava a ser bonito, mas aí, também, já era querer demais.
Ele e a Verônica tiveram essa atração mútua quase que pronto ao se conhecerem. Tomavam o cafezinho juntos na sala dos professores, vez que outra almoçavam, ele a acompanhava até em casa, já que ela morava perto da universidade... E a Verônica chegou a pensar que o Paulo fosse o último tijolo que faltava na construção de sua nova vida. Até aquela sexta-feira...
Era uma sexta-feira qualquer, final de expediente, a Verônica passou pelo Paulo no corredor a caminho do seu escritório, e perguntou qual era a boa do final de semana. O Paulo, então, sorriu de lado e respondeu:
-Amanhã tenho uma festa de criança pra ir. Vou me fartar de tanto comer negrinho.
E deu uma gargalhada.
A Verônica sorriu amarelo, e foi trabalhar. No fim do expediente, após ter ficado com o episódio na cabeça, chegou à conclusão de que fora uma brincadeira de mau gosto, que o Paulo obviamente não era um homossexual pedófilo e meio racista, mas, assim, mesmo, resolveu não esperar ele para acompanhá-la até em casa.
No fim das contas, até a Verônica descobrir que "negrinho" era brigadeiro, o estrago já estava feito.
Uma sombra de pedofilia racista pairava sobre o Paulo toda a vez que ela o via, de modo que, aquele tijolo, continuou faltando na sua construção.

2 comentários:

  1. Bah, eu sei como a Verônica se sente...
    Passei 11 meses achando que MASSA COM GUIZADO era uma espécie de lembas com carne de faisão...

    ResponderExcluir
  2. Ahahahahahahah, ainda hoje eu acho muita graça da tua intriga com a massa com guisado, menina Laís.

    ResponderExcluir